A história da banda do Colégio Gaspar com o presidente Ernesto Geisel

Quem acompanha a Festa Nacional do Chimarrão sabe que o convite ao presidente da República é uma tradição e, com cada maio de Fenachim, vem também a expectativa pela presença da figura mais importante do país.

Seja por agenda ou por questões pessoais, infelizmente a maior festa de Venâncio Aires nunca teve a participação de um presidente. Só que mesmo antes dela, não havia muita informação sobre um chefe de Estado, em mandato ou não, em solo venâncio-airense.

Mas isso já aconteceu, graças a um vínculo especial com uma escola do município. A matéria a seguir é sobre a relação entre o ex-presidente Ernesto Geisel e a banda do Colégio Gaspar Silveira Martins. Relação que propiciou até uma visita surpresa e que não foi divulgada. Até agora.

Um pedido entregue em mãos

Quando a Cooperativa Languiru completou 20 anos de fundação, em 1975, Teutônia (onde está a sede atual) ainda pertencia ao município de Estrela. Para marcar a data, um ‘filho’ ilustre (já que cresceu na localidade) participou das festividades: o então presidente da República, Ernesto Geisel. Foi neste evento que começou uma relação que duraria anos com uma instituição de Venâncio Aires.

Foi lá que a banda do Colégio Gaspar Silveira Martins se apresentou e despertou o interesse do presidente. Na oportunidade, o então diretor do Gaspar, Osvaldo Fiegenbaum, aproveitou para entregar um envelope em mãos. “Tinha 11 pedidos, para que ajudasse com verbas para a biblioteca, laboratórios, ginásio e instrumentos novos”, lembra o professor aposentado, atualmente com 83 anos.

O envelope foi guardado no bolso do paletó do próprio Geisel, onde não foi esquecido. Dias depois, a escola recebeu uma correspondência direta da União solicitando maiores informações sobre as demandas, além de orçamentos. Em pouco tempo novamente, o governo enviou dinheiro para estrutura de um escritório modelo para prática de aulas de contabilidade, para as futuras obras de ampliação da escola e uma quantia importante que possibilitou a compra de 60 instrumentos novos. “Veio o suficiente para compor uma banda completa, com sopro, metais e percussão”, destacou o então maestro e professor de música do Gaspar, Ivo Astor Seidel, 75 anos.

O choro que ficou

Outro pedido era oportunizar a ida da banda a Brasília. Essa excursão, que percorreu diversos estados e pontos turísticos do Brasil, entre 16 e 28 de julho de 1976, foi narrada pela Folha do Mate. Nos dias que antecederam a viagem, a escola viveu momentos de euforia e muita expectativa. Não se falava em outra coisa pelos corredores e a mobilização era total. Inclusive para um guri de apenas 8 anos.

Feliz da vida com tudo que estava acontecendo, até os ‘45 do segundo tempo’ ele acreditava que pudesse ir com a turma. “Fiz um verdadeiro fiasco, chorei muito, porque queria ir junto de todo jeito. Meus pais, avós e professores, demoraram a me acalmar, por causa da grande vontade que eu tinha em ir também”, relata o supervisor administrativo, Leandro Pitsch, 53 anos. A frustração dele ficou na porta do ônibus, onde embarcaram as irmãs Astrid e Maristela, que tinham 14 e 12 anos, respectivamente, e que tocavam escaleta.

Além da banda e do coral, viajaram o diretor Osvaldo Fiegenbaum, a esposa dele e professora, Nydia; Carlos Knak (que presidia a entidade mantenedora) e o regente Ivo Seidel. Entre os alunos, também estava Helga Bülow, então rainha da 2ª Festa Municipal do Chimarrão.

Palácio

“Quando chegamos, fomos parados pelos guardas, dizendo que no Palácio do Planalto não tinha esse tipo de apresentação. Mas a filha do Geisel [Amália] apareceu e disse o pai nos receberia. Os instrumentos maiores não puderam entrar e fomos só como coral”, relata Osvaldo Fiegenbaum.

Naquele 20 de julho, o presidente ainda tinha dois compromissos: receber a turma de Venâncio e um grupo de portugueses. “O presidente pediu para esperar mais um pouco e trocou a ordem. Porque daí não teria mais compromissos e poderia ficar com a gente sem preocupação de horários.”

Fiegenbaum conta que tiveram oportunidade de conversar com Geisel e lhe presentearam com um conjunto de facas para churrasco e pacotes de erva-mate. O encontro também foi noticiado na edição do dia seguinte do Correio Brasiliense, que destacou que o grupo foi “agradecer ao presidente pelo auxilio para fazer a excursão do coral e para modernização da banda marcial.”

Foram, ao todo, 38 elementos, entre eles a professora Ingrid Knak, 62 anos. Para ela, que tinha 16 anos na época, foi um dos momentos mais marcantes como estudante. “Me marcou muito ver o presidente Geisel chorar com nossa apresentação.” As canções apresentadas foram Heimweh (canção em alemão), Urutau e o Hino ao Rio Grande.

Viagem

Dieter Knak, o primeiro trompetista da banda do Gaspar e atual presidente da mantenedora da escola, lembra que, antes da viagem, a banda, a bandinha (formada pelos alunos menores), o coral e o grupo de teatro, realizaram diversas apresentações pelo interior de Venâncio.

Com isso, foi possível arrecadar dinheiro para ajudar na ida a Brasília. Além disso, familiares compraram passagens para contribuir. Para a viagem, foram contratados dois ônibus, de Porto Alegre. Os veículos despertaram a curiosidade dos alunos, pois tinham uma novidade: banheiro. “Do Centro até Mariante, teve fila e todo mundo foi ‘visitar’ o banheiro”, revela Knak, entre risos.

Durante as paradas para almoçar, muitos restaurantes cobravam um valor menor devido à quantidade da turma. “Para agradecer o desconto, a bandinha fazia uma pequena apresentação para funcionários e clientes. Era uma festa.”

Na chegada a Brasília, então uma cidade ‘adolescente’ (como Dieter Knak, que tinha 15 anos), ele lembra das impressões. “A capital ainda estava em formação. Tinha muita terra vermelha e árvores pequenas. Mas já chamava atenção aquelas avenidas largas e prédios enormes e com muito vidro.”

Como no Palácio entrou apenas o coral e Knak também cantava, teve a oportunidade de cumprimentar Geisel. “Independente da questão partidária, a gente não tinha a dimensão do que é ver um presidente pessoalmente. E foi algo tão informal, ele nos deixou muito à vontade.”

O disco que registrou o hino de Venâncio Aires

A evolução da banda na década de 1970 a fez atingir outros patamares. Oportunidades surgiram e o grupo viajou por estados como Goiás, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Em 1982, participou do Campeonato Nacional de Bandas, em São Paulo, promovido pela Rádio Record. Já em 1984, também no estado paulista, foi vice-campeã nacional.

Mas a banda também ultrapassou fronteiras internacionais, com apresentações na Argentina, Uruguai e Paraguai. “Em Buenos Aires, fomos a única escola de não língua espanhola num evento da embaixada alemã. Quando chegamos lá, entre várias bandeiras, ver a brasileira no meio delas foi uma grande emoção”, conta Ivo Seidel.

O maestro também participou de outro momento importante: a gravação do primeiro LP da banda, em 1985. “Não tinha um registro do hino de Venâncio Aires e por isso o fizemos”, explica. A gravação, aliás, é conhecida dos venâncio-airenses, porque é a usada ainda hoje em solenidades. Destino ou não, o disco foi uma espécie de compensação para uma lembrança ‘triste’.

Leandro Pitsch, o mesmo guri que chorou por não subir no ônibus que seguiu a Brasília, fez parte da banda (percussão) quando houve a gravação em estúdio. “Poder tocar na banda foi muito especial, pela semente que a primeira geração plantou e cresceu em mim e nos futuros alunos”, destaca Pitsch.

Outro jovem rosto na capa do LP é da médica infectologista Sandra Knudsen, importante nome de Venâncio Aires na linha de frente contra a Covid. Ela tinha 15 anos na época e tocava clarinete. “São ótimas lembranças que carrego comigo. Nossos ensaios, nossas viagens, nossas apresentações, amigos gravados para sempre na memória. E o grande professor Ivo Seidel”, destacou Sandra.

Banda hoje

Quase 50 anos depois, a banda do Gaspar segue na ativa, com ensaios semanais em grupo e individuais ou por naipe. São atuais 23 alunos, do 6º ano ao Ensino Médio, sob a regência do professor Gustavo Carvalho e também do professor Jessel de Souza. Entre os instrumentos, alguns dos comprados em 1976 ainda são usados, como trombone, bombardino, trompete e percussão.

Duas jovens secretárias e a visita inesperada

“Bom dia, posso ajudar?”. A pergunta de Suzana Dattein foi direcionada a um homem de cabelo branco que adentrou no Gaspar acompanhado de uma senhora, numa manhã qualquer, em 1986. “Ué, não está me reconhecendo?”, foi a resposta do ‘estranho’ sorridente, parado na recepção da escola. Suzana, então com 21 anos, era auxiliar de secretaria do colégio. Era época de férias escolares e ela estava sozinha com a secretária Sidonia Felten Fröhlich, também com 21 anos.

As jovens, de frente para aquele casal, não tiveram reação, até que o homem falou novamente. “Sou eu, o ex-presidente Geisel. Vim fazer uma visita”, anunciou. “Paguei um mico tremendo. Olhava para ele e pensava: te conheço, mas não sei de onde. E era o próprio ex-presidente!”, conta Suzana, entre risos. Ela e Sidonia, até onde se sabe, foram as únicas a ver Geisel naquele dia em Venâncio. “Ele chegou de forma muito discreta, acompanhado da esposa [Lucy]. E pediu para que isso não fosse divulgado”, conta Sidonia, que anos depois também seria diretora no Gaspar. Foi ela quem levou Geisel para ver as obras de ampliação da escola, que incluíam a construção do terceiro andar (auditório), iniciadas com recursos que o governo dele ajudou a custear. “Do alto tinha uma vista bonita da cidade e ele ficou muito entusiasmado com o que viu na escola”, lembra Sidonia.

No andar de baixo, Suzana não sabia o que fazer. “Fiquei perdida. Não consegui avisar ninguém, o professor Fiegenbaum também estava fora. A gente não sabia bem o que fazer, o que falar. Mas foi tão rápido, questão de minutos”, conta Suzana.

A ex-secretária também comentou do pedido de Geisel para que houvesse discrição. “Ele não queria dar publicidade para isso e fez apenas uma surpresa. Eu jamais imaginei um dia dar de cara com um presidente, mesmo já fora de mandato. E ele foi muito simpático, lembro como se fosse hoje. Ele fez uma cortesia para visitar a escola que conheceu através da banda.”

Por Débora Kist – Folha do Mate

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